Saramago descreveu-a como “umas das comovedoras lembranças do viajante” (o viajante era o próprio autor no seu livro Viagem a Portugal), acrescentando: “Talvez um dia volte, talvez não volte nunca, talvez até evite voltar, apenas porque há experiências que não se repetem”. De facto há experiências únicas e uma visita à Aldeia Histórica de Castelo Novo pode muito bem ser a sua próxima visita inesquecível.

Em plena Serra da Gardunha, perfeitamente enquadrada na paisagem, como que num anfiteatro natural, encontramos Castelo Novo, um refúgio de tranquilidade à espera de ser descoberto. Visitámos esta encantadora aldeia numa brilhante tarde de outono, quando as tonalidades douradas a iluminavam e a transformavam num lugar de que não apetecia sair. Siga a nossa proposta de uma tarde em Castelo Novo e perceba o porquê da nossa relutância em partir.

O ponto de partida deste passeio só poderia ser o Castelo. Construído no século XII e abandonado por volta do século XVII, actualmente só restam as ruínas de uma torre quadrangular. Outrora pertenceu aos territórios doados pelos monarcas portugueses à Ordem dos Templários, para que, em terras da Beira assegurassem a posse dos domínios conquistados aos muçulmanos no século XIII. A glória e a imponência do passado perderam-se, mas foram recentemente descobertos  centenas de vestígios da sua ocupação medieval, ao longo de várias campanhas de escavações arqueológicas.

Da muralha avistará o núcleo labiríntico da aldeia, típico dos tempos medievais, e de onde se evidencia, próximo do Castelo, a Igreja Matriz, também conhecida por Igreja de Nossa Senhora da Graça. Construída no século XVIII (possivelmente em 1732), vale a pena visitar o seu interior, onde existem algumas imagens de interesse artístico, nomeadamente a de Nossa Senhora da Serra.

A poucos passos dali está a praça central de Castelo Novo, facilmente identificável pelo interessante pelourinho assente numa grande escadaria octogonal. Datado do século XVI e de estilo manuelino, assinala a elevação a concelho da povoação, tal como o sumptuoso edifício que está junto ao pelourinho. Trata-se da Antiga Casa da Câmara. Já existiria ali antes uma construção, mas o edifício actual é o resultado de profundas obras de remodelação por ordem de D. Manuel I como forma de marcar a atribuição do foral. No primeiro piso funcionaria a câmara, até ao ano de 1835, altura em que o concelho foi extinto.

No piso térreo estaria localizada a cadeia. Hoje alberga o Núcleo Arqueológico de Castelo Novo, onde está exposta parte do acervo de peças recolhidas nas escavações arqueológicas efectuadas no castelo, entre as quais moedas portuguesas dos reinados de D. Sancho I até ao de D. João III, peças metálicas em ferro e em cobre e peças de cerâmica. No exterior do edifício destaque para um chafariz que ostenta o brasão de D. João V, em cujo reinado foi construído.

A partir da praça central siga a Rua de Santo António. Imediatamente à esquerda, irá ver a Capela de Santo António, datada do século XVI e, mais adiante, no Largo Petras Guteni, a Casa da Lagariça, um antigo lagar de vinho, do século VII, convertido numa loja de artesanato. Vire à esquerda pela Rua Nossa Senhora da Graça e, mais à frente, detenha-se no Largo da Bica, onde encontrará o chafariz homónimo. O Chafariz da Bica, barroco, é do século XVIII e distingue-se pela escadaria decorada com vasos flamejantes e modilhões onde se prendiam os cavalos. Se precisa de descansar este é o local ideal para o fazer, num dos bancos de pedra protegidos pela sombra de frondosas árvores.

O Largo da Bica conserva alguns exemplos de importantes casas senhoriais, como a Casa Falcão, a Casa Correia Sampaio e Casa de D. Luís J. Correia, edificadas, respectivamente, nos séculos XVII, XVIII e XIX. No núcleo da aldeia existem ainda várias janelas e portas manuelinas, facilmente reconhecíveis pela sua moldura trabalhada. A última etapa deste itinerário é a Capela do Senhor da Misericórdia, no coração do aglomerado medieval. Foi erigida no século XVII em honra do Senhor da Misericórdia (retratado numa pintura dentro do templo), supostamente como um favor por este ter afastado uma grande praga de gafanhotos que consumia as culturas da região.

Por fim, deixamos-lhe as nossas sugestões de onde comer e dormir. Para degustar o melhor da gastronomia local opte pelo restaurante As Tílias, no Fundão. Para pernoitar pode escolher ficar numa tradicional casa de campo. Existem duas no centro de Castelo Novo: a Casa de Castelo Novo e a Villa Veteris; e uma na localidade vizinha de Chãos: a Cerca Design House. Para uma experiência totalmente diferente arrisque o glamping. Existe um na Serra da Gardunha: o Natura Glamping.

 

Pode encontrar mais informações sobre Castelo Novo no site, no blog ou na página de facebook das Aldeias Históricas.

 

Gabriel Soeiro Mendes, 11 de Dezembro de 2018