Marialva é uma autêntica relíquia viva da ancestralidade portuguesa, um sítio onde é fácil perder a noção do tempo. Percorrer as ruas desta Aldeia Histórica transporta-nos para tempos imemoriais, às raízes mais profundas do nosso passado. As suas calçadas e muros conduzem-nos a uma soberba cidadela medieval, cercada por imponentes muralhas, onde a vista alcança paisagens que ficarão na sua memória por muito tempo. Siga a evocação da História e parta à descoberta desta pitoresca aldeia beirã.

As origens de Marialva deverão remontar ao tempo da antiga cidade de Aravor, fundada pelos Túrdulos, no século VI a.C. Com a chegada dos romanos o nome do lugar alterou-se para Civitas Aravorum. Depois, com a primeira ocupação cristã, dos Godos, passou a S. Justo, a que se seguiram os árabes, que terão dado à cidadela o nome de Malva. Finalmente, após a reconquista por D. Fernando Magno de Leão, em 1063, passou a ser chamada de Marialva.

Despovoada pelas lutas da Reconquista, D. Afonso concedeu-lhe o primeiro foral em 1179. No século XVI, Marialva era já uma das mais importantes praças de guerra do reino, mas nos séculos seguintes foi perdendo relevância militar e, por conseguinte, população. Hoje, renovada no âmbito do projecto Aldeias Históricas, faz do turismo um dos seus motores.

Comece a explorar Marialva partindo da Igreja de São Pedro, na zona a que se chama Arrabalde. O Arrabalde fica extramuros, mas tem uma índole medieval, e não lhe faltam igrejas, capelas e casas senhoriais. Reza a História que, em 1515, a Ordem de Cristo criou a Comenda de São Pedro de Marialva, o que faz indiciar que tenha sido nessa altura a construção da Igreja de São Pedro. Se tiver oportunidade visite o seu interior e repare nas bonitas pinturas a fresco, especialmente para duas delas: uma com uma sereia e outra representando o Martírio de São Sebastião.

Da Igreja de São Pedro siga a rua que que vai dar ao castelo. A meio caminho repare numa casa com um leão junto às suas escadas. A pedra está um pouco gasta, mas consegue-se perceber o contorno do felino. A Casa do Leão, do século XVI, é um dos melhores exemplos de um edifício medieval na aldeia. Junto a ela, em frente ao Posto de Turismo, encontrará o Cruzeiro de Marialva (século XV) e, ao lado, a Capela de Nossa Senhora das Lourdes (século XVII). Entre a capela e a muralha, encontram-se algumas sepulturas escavadas na rocha, mas a importância da capela deve-se sobretudo às pinturas e aos elementos decorativos de talha dourada no seu interior.

Neste ponto estará junto às muralhas do castelo. Erguidas com alvenaria de granito, cercam toda a antiga vila, também chamada de cidadela. Irá atravessar um das quatro portas do recinto, a Porta do Anjo da Guarda (ou Porta de São Miguel), a principal entrada no velho burgo. Ao transpor a porta atente no seu nicho com o Anjo da Guarda e, na ombreira, nas três medidas-padrão que eram usadas como padrão nas feiras.

No cimo de um penedo granítico, estrategicamente construído nesta região fronteiriça do rio Côa (Ribacôa), o castelo de Marialva, de onde sobressai a Torre de Menagem, domina toda a estrutura defensiva da povoação. Do seu topo perceberá a real dimensão da cidadela de Marialva, mesmo que grande parte dela esteja agora em ruínas. Do alto da Torre de Menagem avistará dois templos: uma capela e uma igreja. A Capela do Senhor dos Passos (possivelmente do século XVII) evidencia-se pelas suas linhas simples, de estilo maneirista e inspiração clássica, e pelo curioso púlpito na sua fachada, de onde se fazia a pregação durante as cerimónias da Quinta e Sexta-Feira de Páscoa. Na Igreja de Santiago (edificada em 1585, mas com uma profunda reforma no início do século XVI) evidencia-se o portal na fachada frontal – um portal manuelino em arco pleno com um belo remate de linhas entrelaçadas.

A última paragem deste itinerário é a antiga Praça da Vila, no coração da fortificação de Marialva. Um local que José Saramago descreveu no livro “Viagem a Portugal”: “Neste largo onde está a cisterna, onde o pelourinho está, dividido entre a luz e a sombra, adeja um silêncio sussurrante. Há restos de casas, a alcáçova, o tribunal, a cadeia, outros não se distinguem já, e é este conjunto de edificações em ruína, o elo misterioso que as liga à memória presente dos que viveram aqui, que subitamente comove o viajante, lhe aperta a garganta e faz subir lágrimas aos olhos”. Diz quem viu o Prémio Nobel da Literatura por lá, que esteve sentado durante três horas nas escadas do Pelourinho, em pura contemplação.

Termine este passeio seguindo o exemplo de Saramago e absorva a história deste local que ainda guarda alguns tesouros, como o Pelourinho quinhentista, o Poço-cisterna (que garantia a recolha de água para abastecimento da cidadela) e a Antiga Câmara Municipal (testemunho maior da autonomia administrativa e judicial que o concelho de Marialva possuía nos séculos XVI e XVII).

Prolongue a sua estada em Marialva ficando numa das muitas habitações exemplarmente recuperadas pelas Casas do Côro, situadas muito perto da muralha. Outras opções de alojamento, em aldeias próximas, todas no concelho de Mêda, são a Casa do Redondo, as Casas do Juízo ou o Hotel Rural Termas de Longroiva.

Pode encontrar mais informações sobre Marialva no site, no blog ou na página de facebook das Aldeias Históricas.

 

Gabriel Soeiro Mendes, 18 de Dezembro de 2018